Notícia: Artigo - Prática farmacêutica: saúde baseada em evidências

Publicado em 19/10/2015

Artigo - Prática farmacêutica: saúde baseada em evidências


Confira o artigo produzido pela Comissão de Farmácia Comunitária.
Artigo - Prática farmacêutica: saúde baseada em evidências

Prática farmacêutica: saúde baseada em evidências

 

Comissão de Farmácia Comunitária do CRF-PR

 

Nos últimos anos, os farmacêuticos que atuam em farmácias comunitárias ganharam novas ferramentas de trabalho, as Resoluções nº 585/2013 e 586/2013, as quais tratam das atribuições clínicas do farmacêutico e da prescrição farmacêutica. Em agosto de 2014, com a publicação da Lei nº 13.021, outra conquista, as farmácias passam definitivamente a ser consideradas um estabelecimento de saúde. Assim, o farmacêutico pode, dentro da farmácia comunitária, realizar consultas farmacêuticas, manejar problemas de saúde autolimitados apoiando-se na correta anamnese do paciente, determinar parâmetros bioquímicos e fisiológicos, identificar, avaliar e intervir nos problemas relacionados à farmacoterapia, entre outras atribuições.

No entanto, dentro deste contexto, os farmacêuticos que atuam em farmácias comunitárias passam a conviver com termos até então mais usuais no âmbito hospitalar, tais como “farmácia clínica”, “revisão sistemática”, “metanálise” e “saúde baseada em evidências”. Mas afinal, como estes termos estão inseridos na prática da farmácia comunitária?

A Farmácia Clínica surgiu no âmbito hospitalar, porém, atualmente está presente em quase todos os níveis de atenção à saúde, como em hospitais, ambulatórios, unidades de atenção primária à saúde e farmácia comunitária. Pode ser definida como a “área da farmácia voltada à ciência e à prática do uso racional de medicamentos, na qual os farmacêuticos prestam cuidado ao paciente, de forma a otimizar a farmacoterapia, promover saúde e bem-estar, e prevenir doenças”.

Neste contexto, cabe ao farmacêutico avaliar o paciente por meio de consulta farmacêutica, participar do planejamento e da avaliação da farmacoterapia, realizar intervenções farmacêuticas e emitir parecer farmacêutico, determinar parâmetros bioquímicos e fisiológicos do paciente, para fins de acompanhamento da farmacoterapia e rastreamento em saúde, elaborar o plano de cuidado farmacêutico, prescrever, conforme legislação específica, no âmbito de sua competência profissional e avaliar e acompanhar a adesão dos pacientes ao tratamento.

Na avaliação clínica de pacientes, o farmacêutico frequentemente se depara com problemas de saúde os quais podem ser resolvidos com o auxílio de farmacoterapia adequada. Em muitos casos, o farmacêutico se vê frente a uma gama de fármacos que poderiam ser utilizados. Então, por qual deles optar? Qual é o mais adequado? Qual a conduta a ser adotada? A seleção da melhor terapia deve priorizar a eficácia e segurança do medicamento escolhido, a forma farmacêutica mais adequada e cômoda ao paciente e levar em conta o menor custo possível para o paciente.

Para a tomada de decisão, o farmacêutico deve ter, além de formação técnica apropriada, acesso a fontes seguras de informação sobre medicamentos e terapêutica, que servirão de apoio para definir as condutas mais adequadas a serem adotadas. Assim, a qualidade dessas fontes pode influenciar o cuidado e o modo como os medicamentos são utilizados, sendo de extrema relevância a seleção das mesmas.

Na década de 1990, surgiu um modelo de conduta, baseada na prática clínica pautada em evidências, com o objetivo de um atendimento mais correto, ético e cientificamente fundamentado. A Saúde Baseada em Evidência é um conjunto de estratégias combinadas, que utiliza as ferramentas da epidemiologia clínica, da estatística, da metodologia científica e da informática para trabalhar a pesquisa, o conhecimento e a atuação em saúde, com o objetivo de oferecer a melhor informação disponível para avaliar e reduzir as incertezas na tomada de decisão.

Ou seja, considerando a grande quantidade de publicações científicas geradas todos os dias é necessário escolher o melhor tipo de informação, “somar” os resultados e resumir o conhecimento gerado com objetivo de facilitar a escolha do melhor medicamento ou terapia em saúde, no caso do farmacêutico e outros profissionais de saúde.

Para a escolha do melhor tipo de informação considera-se o “nível de evidência e o grau de recomendação” das mesmas e que atualmente é representada pela revisão sistemática de Ensaios Clínicos Randomizados (ou de Revisões Sistemáticas (denominada “Overview”).

A revisão sistemática não é o mesmo que revisão de literatura ou revisão narrativa, já que é mais detalhada e com metodologia rigorosa a ser seguida. Deve se definir claramente a pergunta de pesquisa e consultar diversas fontes de informação cientifica.

Os Ensaios Clínicos Randomizados são estudos controlados para a comparação da eficácia, segurança, tolerabilidade, acurácia e outros, entre duas tecnologias em saúde, como por exemplo medicamentos.  Utilizam um grupo de indivíduos como controle e outro grupo que receberá a intervenção em estudo.

A opinião de especialistas, baseada na experiência do dia a dia é importante e deve ser estimulada, porém é classificada no menor nível de evidência, válidas, entretanto, nos casos em que não exista informação superior.

Os resultados encontrados na revisão sistemática podem ser parecidos ou controversos e para se conhecer o resumo final, o tamanho do efeito, realiza-se a metanálise, uma técnica estatística que combina os resultados de todos os estudos selecionados como se fizessem parte de um único grande estudo. Essa conclusão é a “evidência” a partir da qual se estabelecem os protocolos clínicos ou “guidelines”.

Ainda é importante ressaltar que existem ferramentas para averiguar a qualidade de metanálises, revisões sistemáticas e estudos utilizados. Portanto além de conhecer a melhor evidência é importante saber avaliar sua qualidade e se está ou não sujeita a vieses (desvios) como por exemplo a não divulgação ou mascaramento de determinados resultados por interesse comercial.

A nova forma de atuação do farmacêutico o levará a conhecer e a se familiarizar com estes termos, assim como aconteceu com os profissionais médicos e outros. Dessa forma estará apto a providenciar a melhor tomada de decisão e oferecer um serviço técnico de alta qualidade.

 

 

Referências

 

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