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Publicado em 29/01/2019

A arte de transformar plantas em medicamentos


A arte de transformar plantas em medicamentos

Oeste do Paraná é referência por sua assistência farmacêutica pública em plantas medicinais e fitoterápicos

O projeto Arranjo Produtivo Local, através do Sistema Único de Saúde, abrange os municípios de Toledo, Foz do Iguaçu, Pato Bragado, Vera Cruz do Oeste, São Pedro do Iguaçu, Umuarama e Francisco Beltrão


As plantas medicinais são usadas há muito tempo por nossos antepassados e são conhecidas por terem um papel importante na cura e tratamento de doenças. Em algumas comunidades, essas plantas simbolizam a única forma de tratamento de determinadas patologias. Estima-se que aproximadamente 80% da população do planeta já tenha feito uso de algum vegetal para aliviar sintomas de alguma enfermidade.

Atualmente, podemos observar uma demonstração das pessoas cada vez mais interessadas no uso de produtos naturais devido à busca por um estilo de vida mais saudável. Diversas espécies de plantas medicinais já são comercializadas na forma de fitoterápicos e extratos com a finalidade de auxiliar em diversos tratamentos.

Com isso, uma grande preocupação é gerada, já que o uso de fitoterápico é julgado pela maioria dos usuários como inofensivo. Nesse contexto, cabe aos profissionais de saúde, incluindo o farmacêutico, orientar os pacientes sobre a ação de determinados medicamentos, as consequências de seu uso e quais as possíveis interações medicamentosas e alimentares.

O Brasil, por ser o país que possui a maior biodiversidade vegetal do planeta, é natural o investimento governamental em plantas medicinais e fitoterápicos para tratamentos medicamentosos, principalmente através do Sistema Único de Saúde. O oeste do Paraná, através do projeto Arranjo Produtivo Local de Plantas Medicinais (APL), é referência por sua assistência farmacêutica de qualidade, que leva ao cidadão medicamentos fitoterápicos seguros e eficazes. Entrevistamos o Presidente da SUSTENTEC, Instituição responsável pela articulação do APL na região oeste do Paraná, Dr. Euclides Lara Cardozo Júnior, confira ao lado e entenda como funciona o projeto.

 

COMO SURGIU O ARRANJO PRODUTIVO LOCAL DE PLANTAS MEDICINAIS AQUI NO PARANÁ?

O APL iniciou suas atividades em 2003 a partir da articulação entre várias instituições do oeste do Paraná que já desenvolviam atividades na área de plantas medicinais. Estas instituições, sob a coordenação da Itaipu Binacional, formaram o Comitê Gestor que é o responsável por unir os esforços individuais e coletivos com o objetivo de desenvolver a cadeia produtiva das plantas medicinais e fitoterápicos e sua utilização racional. O Comitê articula as instituições para atuarem nos diferentes elos da cadeia produtiva que envolvem desde a produção agrícola das matérias-primas até a utilização do medicamento no sistema formal de saúde.

A partir de 2012, com o apoio do Ministério da Saúde, diferentes municípios do oeste do Paraná obtiveram apoio para a implantação da fitoterapia no âmbito da assistência farmacêutica. São exemplos os municípios de Toledo, Foz do Iguaçu, Pato Bragado, Vera Cruz do Oeste, São Pedro do Iguaçu, Umuarama e Francisco Beltrão.

Com a iniciativa de várias instituições da sociedade, o programa impacta diferentes dimensões da organização social, não se limitando apenas às questões do medicamento. O projeto envolve aspectos relacionados às questões ambientais, agrícola, desenvolvimento regional, inovação, e por fim, a disponibilidade de medicamentos de qualidade para a população. Neste sentido, o projeto trabalha pela sustentabilidade da oferta de medicamentos fitoterápicos seguros e eficazes, incentivando agricultores a cultivar plantas medicinais, organizando o processo produtivo, apoiando pesquisas em universidades e capacitando profissionais de saúde na melhor forma de utilizar os recursos terapêuticos de origem vegetal. O principal objetivo, em última instância, é oferecer fitoterápicos de qualidade para os usuários do Sistema Único de Saúde e com reflexos positivos sobre toda a cadeia produtiva.

 

ONDE SÃO DISPONIBILIZADOS OS FITOTERÁPICOS PRODUZIDOS PELO APL?

Cada município opta pela forma mais adequada de obtenção de medicamentos fitoterápicos de acordo com a realidade local. Invariavelmente, os medicamentos são disponibilizados nas farmácias públicas com a assistência profissional na dispensação. O município de Toledo possui uma farmácia de manipulação que adquire os extratos e manipula medicamentos fitoterápicos de acordo com as prescrições dos profissionais habilitados. O município de Foz do Iguaçu adquire medicamentos manipulados na rede privada e também disponibiliza aos usuários com a prescrição profissional. Municípios menores, como São Pedro do Iguaçu e Vera Cruz do Oeste, distribuem drogas vegetais rasuradas na forma de chá também no âmbito da assistência do farmacêutico. Independente da forma de obtenção, os produtos são disponibilizados para a população com a garantia da prescrição correta.

 

QUANTAS PESSOAS SÃO BENEFICIADAS NESTE PROJETO?

Em maior ou menor grau, o Arranjo Produtivo de Plantas Medicinais atinge quase a totalidade da população do oeste do Paraná em diferentes ações. As ações de sensibilização da população para o uso correto de plantas medicinais na forma de palestras, oficinas, dias de campo e visitas aos hortos, atingem diferentes grupos como escolares, idosos, mulheres, agricultores, etc. Os cursos de capacitação são oferecidos para profissionais da rede pública de saúde dos municípios da região. Os medicamentos fitoterápicos disponibilizados no SUS, por sua vez, são utilizados pelos usuários nas situações em que há racionalidade na sua utilização.

 

QUAIS DOENÇAS SÃO TRATADAS?

O principal foco são as patologias da atenção primária onde a utilização racional de plantas medicinais e fitoterápicos pode trazer benefícios claros ao usuário. Na atualidade é enfatizada a utilização de plantas medicinais e fitoterápicos nos problemas de saúde autolimitados. Outra estratégia que tem demonstrado resultados interessantes é a utilização de medicamentos fitoterápicos no manejo e redução de fatores de risco associados a doenças crônico-degenerativas como hipertensão e diabetes.

 

QUAIS PLANTAS SÃO CULTIVADAS PARA A FITOTERAPIA?

O Brasil é o país que possui a maior biodiversidade vegetal do planeta. Neste sentido também é grande a lista de espécies medicinais com potencial medicamentoso. No projeto, as plantas medicinais são trabalhadas a partir de diferentes estratégias, ampliando o potencial de aproveitamento de nossa biodiversidade.

 

 

COMO É A ATUAÇÃO DO FARMACÊUTICO COM PLANTAS MEDICINAIS E FITOTERÁPICOS DESTES MUNICÍPIOS?

O farmacêutico é o elo entre todas as etapas do projeto e também com os demais profissionais envolvidos na área da saúde e correlatas. Numa perspectiva interdisciplinar, o farmacêutico atua na sensibilização da comunidade, na capacitação de outros profissionais da saúde, na manipulação de medicamentos, na produção de extratos e medicamentos fitoterápicos industrializados, na gestão, administração e articulação das atividades do projeto. Desta forma, o farmacêutico é indispensável em várias etapas e o sucesso do projeto está diretamente ligado à participação destes profissionais.

O município de São Pedro do Iguaçu foi contemplado com recursos do Ministério da Saúde em 2015 para a assistência farmacêutica em fitoterapia. Parte do recurso foi destinado a capacitação de prescritores e agentes de saúde e para a sensibilização de membros da comunidade que desempenham papel de coordenadores de grupos e movimentos pastorais. A outra parte do recurso foi utilizada para aquisição de plantas medicinais em rasura e medicamentos fitoterápicos, e equipamentos para o desenvolvimento do projeto. A equipe da Farmácia da Unidade de Saúde é formada pela Farmacêutica coordenadora do projeto: Dra. Ivanete Teresinha Kochhann, Farmacêutica: Dra. Aline Cristine Soares de Lima e auxiliares de farmácia: Andréia Cristina dos Santos Bonjour, Graziele Balena Delgado dos Santos. A equipe faz a distribuição de plantas medicinais em rasura e fitoterápicos, sendo que os produtos com maior destaque são a calêndula e camomila para o tratamento de feridas; Extratos encapsulados de Ginkgo, Castanha da Índia, Passiflora, Espinheira Santa e Isoflavona; e Xarope de Guaco dispensados mediante receita dos prescritores. Além disso são realizadas atividades de sensibilização da comunidade e acompanhamento técnico dos prescritores.

O município de Pato Bragado desenvolve ações na fitoterapia desde 2012. A equipe de assistência farmacêutica em plantas medicinais e fitoterápicos formada pelos farmacêuticos Dra. Claudete Specht Tiecker e Dr. Breno Maineri Junior, com apoio da auxiliar Angélica Moraes. Juntos desenvolvem atividades de sensibilização da comunidade, capacitação de prescritores e dispensação de produtos fitoterápicos. O objetivo é proporcionar benefícios aos usuários do SUS, como uma alternativa de tratamento e/ou melhoria na qualidade de vida. Vários profissionais foram capacitados e o projeto disponibiliza um médico exclusivo para as consultas com fitoterápicos, além da equipe contar com um farmacêutico responsável pelo programa de fitoterapia. Dentre os medicamentos fitoterápicos ofertados estão as plantas rasuradas
embaladas, medicamentos manipulados e medicamentos industrializados, todos oriundos de processos licitatórios. No município de Pato Bragado localiza-se a Unidade de Produção de Extratos da SUSTENTEC onde são produzidos extratos para a manipulação e elaboração de medicamentos fitoterápicos industrializados.

Estratégia semelhante é desenvolvida em Vera Cruz do Oeste, onde o farmacêutico Marcelo Carvalho coordena o projeto de plantas medicinais apoiando e incentivando a produção pelos agricultores familiares do município que é sede da Cooperativa Gran Lago, responsável por organizar a produção agrícola de plantas medicinais. Na farmácia da Unidade Básica de Saúde são distribuídas plantas medicinais em rasura e produtos fitoterápicos. O município tem tido bons resultados na melhoria da qualidade de vida de pacientes hipertensos com a utilização da fitoterapia.

Em 2012, o município de Foz do Iguaçu, através da Assistência Farmacêutica, foi contemplado com recursos do Ministério da Saúde para implantar um projeto de fitoterapia. Foram realizadas capacitações de médicos, dentistas, farmacêuticos, nutricionistas e enfermeiros para a prática da fitoterapia junto aos serviços e programas de tabagismo, saúde mental, diabetes, hipertensão e obesidade.

Os trabalhos foram realizados através de rodas de conversa nos grupos do Hiperdia (cadastramento e acompanhamento de portadores de hipertensão arterial e/ou diabetes mellitus atendidos na rede ambulatorial do Sistema Único de Saúde), grupos de tabagismo, obesidade e orientações aos agentes comunitários. Além disso, em uma parceria com a Secretaria de Educação do município, as merendeiras foram orientadas sobre a preparação de sal temperado como estratégia de controle da hipertensão e reeducação alimentar para diminuição de chás estimulantes no ambiente escolar.

Outra ação importante envolveu a avaliação odontológica para utilização de bochechos com fitoterápicos para afecções bucais e prevenção de cáries nos Centros Municipais de Educação Infantil. Também foram desenvolvidas ações de avaliação médica dos pacientes dos grupos supracitados com prescrição de fitoterápicos, manipulação e dispensação de fórmulas fitoterápicas individuais e rasuras com orientação farmacêutica aos pacientes.

No momento, o município de Foz do Iguaçu disponibiliza medicamentos industrializados para dispensação nas farmácias municipais aos pacientes a partir de avaliações médicas e odontológicas. A equipe de assistência farmacêutica planeja a ampliação da fitoterapia para o próximo ano em novos serviços.

Nos municípios de Umuarama e Francisco Beltrão os projetos são recentes e foram contemplados com recursos do Ministério da Saúde respectivamente nos anos de 2016 e 2017. Estes municípios seguem as estratégias citadas anteriormente com o aproveitamento do potencial medicinal das plantas medicinais e disponibilização de produtos de qualidade para o tratamento de patologias da atenção primária. Em todos os municípios citados, a articulação e apoio técnico para a elaboração e execução das propostas foi de fundamental importância, e a SUSTENTEC auxiliou na elaboração das propostas e realizou a capacitação dos profissionais.

 

COMO É O TRABALHO COM O PRESCRITOR?

A prescrição profissional de medicamentos fitoterápicos é uma novidade nos serviços públicos apesar da grande tradição de uso destes produtos pela população em nosso país. Os profissionais precisam de capacitação para entenderem as particularidades da prescrição de fitoterápicos. O município de Toledo é o que mais avançou na prescrição profissional de fitoterápicos e onde é possível visualizar os resultados mais consistentes. Neste município, os profissionais prescritores (médicos, dentistas, enfermeiros, farmacêuticos e nutricionistas) foram capacitados na utilização da fitoterapia no âmbito de atuação de cada profissão. As prescrições são encaminhadas à farmácia, que faz a dispensação e o acompanhamento. A fitoterapia apresenta características próprias na prescrição e o farmacêutico deve apoiar os profissionais prescritores no entendimento destas nuances e especificidades. Como a utilização de fitoterápicos não é uma regra nos serviços públicos de saúde, o farmacêutico precisa estar envolvido em todas as ações para dar consistência e racionalidade ao projeto e desta forma, obter os melhores resultados.

 

ESTE PROJETO É DESTAQUE NACIONAL E JÁ RECEBEU VÁRIOS PRÊMIOS POR SEU DESEMPENHO. QUAL O FUTURO DESTE PROJETO? HÁ EXPECTATIVA DE AMPLIAÇÃO?

O projeto com plantas medicinais no oeste do Paraná é referência nacional e internacional e recebeu prêmios e reconhecimento a partir das diferentes dimensões do seu impacto na sociedade. Porém, a principal vitória conquistada é sua sustentabilidade social, econômica, ambiental e cultural. Num país onde as políticas públicas balançam ao vento pela falta de visão de gestores públicos e onde a fitoterapia não recebeu ainda o reconhecimento devido, é importante ressaltarmos que o projeto com plantas medicinais ultrapassou gestões de diferentes linhas políticas, sobrevivendo à falta de incentivos públicos.

A ampliação dependerá da decisão firme da sociedade, de seus governantes e dos profissionais, que devem, com sabedoria, aproveitar o potencial que a natureza disponibilizou. Temos uma coleção enorme de mitos sobre as plantas medicinais e a fitoterapia que permeiam o pensamento dos profissionais farmacêuticos, alimentados pelo desconhecimento sobre a atuação do fitocomplexo, sinergismo entre os princípios ativos e outras questões relacionadas ao conhecimento da fitoterapia. Estes mitos precisam ser combatidos e a fitoterapia necessita ser levada ao patamar que merece no conjunto do conhecimento farmacêutico.

Hoje, na região oeste do Paraná, temos na região uma base de produção de plantas medicinais e de conhecimento que irá com o tempo consolidar as ações desenvolvidas até o momento. Existe a Cooperativa Gran Lago, que coordena o cultivo de plantas medicinais, e agricultores que optaram por produzir comercialmente estas plantas e obtém um bom rendimento de seu trabalho. Temos um Mestrado em “Plantas Medicinais na Atenção Básica” e diversos cursos de atualização em fitoterapia para profissionais de saúde na região.

Um fato importante a ser citado como expectativa de ampliação e desdobramentos é o trabalho desenvolvido em conjunto com o Conselho Federal de Farmácia (CFF) no âmbito do Curso de Cuidados Farmacêuticos no SUS. Toda a experiência desenvolvida no APL de plantas medicinais do oeste do Paraná está sendo replicada nos polos dos cursos do CFF no Brasil inteiro. Os profissionais estão sendo despertados para a importância de considerar a prescrição farmacêutica de fitoterápicos a partir de uma cadeia sustentável de suprimentos (plantas in natura, extratos e medicamentos fitoterápicos) desenvolvida regionalmente. E por fim, como perspectiva mais importante, temos municípios que optaram de forma racional e definitiva por aproveitar o potencial das plantas medicinais e estão colhendo resultados positivos na melhoria da qualidade de vida da população e no desenvolvimento da cadeia produtiva de fitoterápicos.

  

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Fonte: Assessoria de Comunicação / CRF-PR